Arthur Paredes | cinema

Arthur Paredes | cinema

Publicitário, Diretor da Plus! Agência Digital e cinéfilo de carteirinha

Postado em 27/03/2016 16:31

Batman vs Superman - A Origem da Justiça

Batman vs Superman - A Origem da Justiça
Essa sim foi a luta mais aguardada do século

Tenho acompanhado diversas críticas sobre Batman vs Superman, todas bem dicotômicas, algumas elogiosas, outras desastrosas. E confesso que mesmo sendo um grande fã de Batman desde criança, fui ao cinema sem nenhuma expectativa positiva sobre o filme. Lembrava o tempo todo do último filme de Zack Snyder, o Homem de Aço, que não conseguiu retomar bem o reboot de Superman.

Mas antes do filme começar, também lembrei que Snyder foi o responsável pela obra prima Watchmen que considero, até hoje, o melhor filme de super-heróis já feito. Com isso em mente, fica impossível ignorar que BvS ganhou belas pitadas, ainda que em doses homeopáticas, da artificialidade poética de Watchmen e alguns exageros também herdados de seu outro filme, 300.

Eis que, pela primeira vez, discordei em grande parte da maioria das críticas que li, principalmente as relacionadas à direção de Snyder. Acredito que o ponto principal das críticas negativas foram algum tipo de comparação inconsciente com seu concorrente da Marvel, Os Vingadores. Digo isso porque BvS é muito mais na linha de Watchmen do que Cavaleiro das Trevas ou qualquer outro filme da concorrente Marvel.

Um filme que preza por diálogos inteligentes, não gasta tempo com humor e prefere um ritmo mais disciplinado de roteiro antes de partir para o “quebra pau” que o público quer ver. A expectativa de ver os dois maiores heróis da cultura partindo pra briga também afeta e muito a percepção do filme, pois realmente demora muito a acontecer.

Sim, BvS é um filme bem longo para os padrões do estilo, e isso é seu grande diferencial. Não consegui ficar cansado em momento algum nos primeiros atos do filme que contém pouca ação e muita história. E seu ápice final, com muita ação e reviravoltas teve de ser bem preparado antes por um roteiro inteligente que teve a grande dificuldade de juntar duas histórias dos quadrinhos, O Cavaleiro das Trevas e A Morte do Superman, e mais a do excepcional game Injustice.

Some a tudo isso a pressão para injetar três personagens que aparecem rapidamente no filme, e ainda preparar terreno para o próximo grande filme da Liga da Justiça. E Snyder conseguiu entregar um resultado muito bom, não perfeito, longe do excepcional, mais ainda assim admirável e empolgante. Sem falar da responsabilidade de se basear na obra prima dos quadrinhos que revolucionou seu mercado.

Com uma fotografia incrível e a trilha sonora impecável de Hans Zimmer – que consegue envolver o espectador na hora certa, no ritmo certo -, Snyder consegue driblar um roteiro complexo, cheio de exigências de fãs, produtores e executivos, e entregar um filme maduro e violento, bem oposto ao estilo de sua concorrente Marvel.

E o que falar de Gal Gadot que, mesmo aparecendo muito pouco no filme, já mostra o que vem por aí de seu filme solo, com uma atuação – e beleza – que faz qualquer heroína ficar abaixo de seu novo padrão. Já Amy Adams, a Lois Lane, poderia ser substituída por uma estagiária da novela Malhação e ninguém perceberia. Ben Affleck também surpreende com um Bruce Wayne cansado, ligado em uma espécie de “modo automático” que precisa do mordomo Alfred pra manter o juízo.

Quanto a Henry Cavill, não houve nenhuma evolução de seu último papel em O Homem de Aço. Além de apanhar feio do Batman, acaba se tornando um ator coadjuvante com expressões forçadas de arrogância e muito longe do carisma do eterno Christopher Reeve. Mas o grande desastre mesmo fica por conta de Jesse Eisenberg destruindo um papel importante tal qual Johnny Depp fez com Willy Wonka no remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Inclusive com uma atuação bem parecida, cheia de tiques e trejeitos malconduzidos.

O filme está muito longe de ser um dos melhores da história, mas sem dúvida define um novo estilo contrapondo sua concorrente, absorvendo um público mais maduro e paciente. BvS apenas peca em limitar-se. Muitas questões políticas e filosóficas que poderiam ser aprofundadas e torná-lo épico como TDK, evaporam com a pressão de entregar lutas e muita destruição, seguindo um padrão Hollywoodiano que infelizmente ainda é exigido pelo grande público de massa.

Salvo seus problemas com alguns atores e alguns furos de roteiro, BvS já marca a história do cinema como um novo marco nos filmes de super-heroís, define seu próprio estilo e mostra um pouco das coisas boas que vem por aí!

P.S.: A versão 3D é totalmente descartável, produzida apenas por questões comerciais e não há cenas pós-créditos.
 

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Postado em 02/02/2014 19:30

Ninfomaníaca

Ninfomaníaca
O corpo pode ser uma prisão de desejos dos quais não temos como escapar.

“Basicamente todos estamos esperando permissão para morrer”


Em certo momento, Joe (Charlotte Gainsbourg) solta esta máxima, uma clara demonstração de sua agonia em relação à vida. E de agonia o diretor Lars Von Trier entende bem. Tanto que em quase todos os seus filmes, ela é abordada através de algum aspecto da vida, sendo desta vez através do sexo. O tema já havia sido abordado anteriormente em Anticristo (crítica disponível aqui no blog), mas desta vez o diretor optou por explorar outros caminhos.

Infelizmente muitos que assistiriam à primeira parte de Ninfomaníaca foram induzidos pela expectativa erótica criada pela publicidade de lançamento do filme, por isso tenho ouvido e lido algumas críticas negativas, sempre analisadas de forma superficial. Porém para uma percepção mais apurada de Ninfomaníaca, acredito que seja necessário assistir aos filmes anteriores de Von Trier para entender seu estilo narrativo, principalmente os elementos que costuma repetir.

Por se tratar da primeira parte de uma longa história, ainda por cima editada (a versão sem cortes, além de ser mais “hardcore” possui 5h30 de duração) posso apenas abordar de forma incompleta o contexto de Ninfomaníaca. Filmes deste tipo não possuem uma explicação fechada, mas considerando a visão de vida de Von Trier, podemos mergulhar em sua filosofia depressiva e tirar algumas conclusões úteis para a segunda parte do filme (que entrará em cartaz por aqui no dia 21 de março).

O filme tem início em uma vizinhança melancólica e chuvosa que, disposta em becos estreitos, exibe o corpo inconsciente de Joe (Gainsbourg). Resgatada por um habitante local (Skarsgård), e levada para sua casa, ela passa a narrar as circunstâncias que a levaram a se transformar numa mulher coberta de sangue e traumas, deixando claro, desde o princípio, que não poupará a si mesma: “Eu sou um ser humano ruim”, afirma já de cara. A partir daí, saltamos para uma série de flashbacks que acompanham a moça da infância à fase adulta, quando passa a encarar o sexo com a diligência de uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo.

Estilo semelhante já foi utilizado em Dogville, onde a protagonista (Nicole Kidman) sempre fazia questão de deixar claro seu perigo para os habitantes da cidade, enquanto o filósofo moralista contestava-a, e seu perigo efetivamente demonstrado apenas no final da projeção. Em Ninfomaníaca o filósofo é substituído por Seligman, que torna-se a âncora narrativa do filme, sempre tentando amenizar a história contada por Joe, tentando a todo momento mostrá-la que suas atitudes podem ser consideradas normais e não necessariamente repreensíveis. Mesmo assim Joe ignora e insiste em sua nocividade às pessoas.

Como em um divã (Lars tem um forte apreço pela psicanálise, já abordada em Anticristo), Seligman pode ser visto como um psicólogo ou um hipócrita (nós, a sociedade) que a todo momento procura não confrontar as atitudes de Joe. Mas considerando o estilo recorrente de Lars Von Trier, já é possível prever uma possível inversão de papéis na segunda parte de Ninfomaníaca. Enquanto Joe narra sua história, Seligman interrompe a todo momento com metáforas de pesca, música e matemática, utilizando argumentos racionalistas e científicos para justificar as passagens da história. Uma delas quando Joe narra a perda de sua virgindade feita friamente com “3 estocadas”, em seguida mais “5 estocadas”, e Seligman afirma que 3+5 é um número de Fibonacci buscando uma explicação matemática para uma situação tão crua.

Joe inicia sua história na infância, afirmando “Eu descobri minha boceta aos dois anos de idade”, ou citando seu prazer ao ficar pendurada por vários minutos nas cordas das aulas de educação física apenas para sentir o prazer de ter algo entre as pernas (o falo). Seu amor pelo pai, médico que lhe ensinou a vivenciar o prazer sentindo o vento refrescando seu rosto na floresta, oriundo de uma brisa, ou da beleza do formato de uma folha. Sua raiva pela mãe, a qual chamava de “vadia” e fazia questão de avisar ao pai, que sempre negava (na psicanálise, o Complexo de Elektra). O apego da filha pelo pai que se converte em conflito com a mãe, frequentemente visto na vida real - se você é homem, lembre-se da relação de suas ex-namoradas com o pai e com a mãe...

A incessante busca desesperada de Joe e sua melhor amiga por sexo sem limites, que como todo vício, chega a um ponto em que não há mais o prazer, mas apenas a necessidade. Como na cena em que as duas disputam por quem faz sexo com mais homens em uma viagem de trem, sendo o prêmio um pacote de chocolate (o diretor talvez não quisesse colocar o dinheiro como recompensa para que não as julgássemos como prostitutas, mas sim uma banal desculpa para sua disputa). Em momento algum Von Trier glamouriza o sexo, muito pelo contrário, mostra Joe presa em seu próprio corpo, em seu próprio vício, como um animal selvagem enjaulado que não tem nada a fazer além de expurgar seus instintos como pode, esperando o dia em que será dada a permissão de sua morte.

Na cena da morte de seu pai, a única cena em preto e branco do filme (referência ao livro de Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher), propositadamente pensada para não expor a cor do sangue e dos excrementos de seu pai doente, Joe, ao contemplar seu pai morto na cama não exprime tristeza, mas em sua narração fala que “foi um momento vergonhoso” e em seguida podemos ver uma “lágrima” escorrendo de sua vagina por sua perna direita. Uma clara demonstração da simbologia do filme e da expressão emocional de Joe através da sexualidade.

Assim, o sexo é abordado sempre como uma fuga, uma forma de expurgação, de catarse, mas também de controle sobre outras pessoas, um jogo em que ela possui o dom de nascença. Em certo momento, Joe se relaciona com tantos homens à sua procura, que vê a necessidade de criar uma “metodologia” para definir quem será dispensado ou continuará com ela. Sua forma particular de buscar uma ordem em meio ao caos, metodologia que utiliza um dado e cada número representa uma escala de “dispensa”, uma forma de atribuir à aleatoriedade suas decisões e se eximir da responsabilidade.

Até ela se deparar com o “amor”. Enquanto sua amiga afirmava ser o amor o ingrediente secreto do sexo, Joe se vê, em certo ponto, sem vontade de fazer sexo com um dos personagens e entra em uma fase de abstinência de seu vício. Seligman defende: “o amor é cego”, Joe rebate “o amor não é cego, ele distorce as coisas”. O amor como um jogo de caça, de dominação, de desejo pelo que não se pode ter fácil. Cada homem com seu estilo, como um acorde musical que só se completa com a nota que faltava, que preenche o vazio, o amor.

Bom, tenho que parar por aqui para não revelar mais detalhes do final, mas prometo fechar esta ponta solta na crítica da segunda parte. Resta a expectativa de saber porque de Joe insiste tanto em sua culpa e como ela foi parar naquele beco com hematomas, mas isso só saberemos na segunda parte de Ninfomaníaca. Até lá! 

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Postado em 26/08/2012 17:47

Blade Runner

Blade Runner
Até que ponto somos "humanos"?

Blade Runner é, sem dúvida, um dos maiores representantes da cibercultura. Mesmo completando 30 anos em 2012, ainda hoje é referência para muitos filmes de ficção científica, e se consagrou como um dos maiores clássicos do gênero, mas à época em que foi lançado não teve seu merecido reconhecimento. Pelo contrário: foi um fracasso de bilheteria, sua versão final foi editada a contragosto do diretor Ridley Scott (Gladiador, Alien) e muitos não gostaram do filme.

O filme se passa em 2019, em uma Los Angeles banhada por uma constante chuva ácida, onde robôs orgânicos criados geneticamente chamados de replicantes são fabricados pela poderosa Corporação Tyrell. Seu uso na Terra é banido e os replicantes são exclusivamente usados em lugares inóspitos para trabalhos perigosos em colônias extraterrestres. Os replicantes que desafiam esse banimento e retornam para a Terra são caçados e exterminados pelos operativos especiais da polícia conhecidos como "Caçadores de Androides". Quando um grupo de replicantes escapa, o aposentado Caçador de Androides, Dick Deckard (Harrison Ford), relutantemente aceita o trabalho de caçá-los, mas acaba se envolvendo emocionalmente com um deles.

Baseado no livro Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, um dos mais cultuados autores de ficção científica, Blade Runner é um filme que nunca envelhece. Alguns de seus efeitos especiais produzidos apenas com maquetes, surpreendem ainda hoje, deixando muita computação gráfica no chinelo – francamente, já é cansativa a artificialidade da computação gráfica, e alguns diretores já a colocam em segundo plano como Christopher Nolan na trilogia de Batman e A Origem.

Seu enredo complexo, que mistura traços noir dos anos 20, futuro pós-apocalíptico, inteligência artificial e exploração extraterreste, nos traz um estilo estético único, consagrando-se como um clássico cult, e conforme as palavras do diretor Ridley Scott, “seu filme mais completo e pessoal”. Em 1993, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso como sendo "culturalmente, historicamente ou esteticamente significante".

Com uma das trilhas sonoras mais marcantes do cinema, produzida em um clima cibernético e sombrio por Vangelis (a música tema encerra o filme de forma magistral), Blade Runner é um filme filosófico e bonito, que nos envolve em um clima único, além de sua riqueza de detalhes que nos faz viajar com uma história complexa e um final (da versão do diretor) inesquecível. Um filme de dar orgulho a Isaac Asimov.

A filosofia que o filme aborda continua muito atual e nos faz refletir sobre o verdadeiro significado de “ser humano”. A tecnologia em 2019, através da inteligência artificial, consegue criar replicantes idênticos aos humanos mais fortes e ágeis. Mas devido a problemas de instabilidade emocional e pouca empatia, eles são mais agressivos e seu tempo de vida é limitado a apenas 4 anos. Devido ao seu pouco tempo de vida, suas memórias são implantadas e criadas artificialmente. Ou seja, além de organismo e inteligência artificiais, suas consciências também são.

Um teste Voight-Kampff feito em Rachael (Sean Young), que acredita ser humana, demora mais que o normal e surgem dúvidas se ela é realmente uma replicante, levantando uma questão importante: até que ponto uma consciência artificial poderia se tornar verdadeiramente “humana”?

Desde seu lançamento, em 1982, Blade Runner contou com sete versões diferentes como resultados de mudanças controversas feitas pelos executivos do filme. Sua primeira versão de lançamento chegou a ter uma ridícula narração em off com Deckard explicando várias cenas do filme. Apenas em 2007, a Warner Bros lançou o The Final Cut, uma versão digitalmente remasterizada de 25 anos feita por Scott, em cinemas selecionados e posteriormente lançada em DVD e Blu-ray.

ATENÇÃO! SPOILER

E é na versão final do diretor que podemos encontrar o ponto chave de todo o filme. Não continue a leitura se não quiser saber o final: Deckard também é um replicante! No início do filme temos o investigador da polícia brincando com um origami. No meio, temos uma lembrança esquisita de Deckard vendo um unicórnio correndo (a cena chave que indica que Deckard é um replicante, removida da primeira versão do filme) e no final do filme ele encontra um origami de um unicórnio, sugerindo uma memória que lhe foi implantada.

Ao longo do filme, cada um dos replicantes é caçado, e parecem adquirir características humanas, enquanto os humanos que os caçam parecem adquirir, cada vez mais, características desumanas. Logo, surgem questões que afligem os humanos também nos replicantes, como medo da inevitabilidade da morte, rebeldia, razão da existência, oposição ao seu criador. Isso fica bem claro no momento em que um replicante mata seu Tyrell, que não pode resolver sua morte inevitável, negando seu criador e indo de encontro ao seu destino conformista.

Até onde nossas memórias podem ser perpetuadas? Tudo o que vivenciamos de mais incrível em nossa vida se perderá como “lágrimas na chuva” após a nossa morte? E se pudéssemos “armazenar” nossa consciência em algum lugar antes de nossa morte?

Blade Runner é um filme único, inesquecível e que mesmo 30 anos após seu lançamento continua sempre atual e é referência para grande parte dos filmes modernos de ficção científica, que o digam Minority Report, Matrix, A.I. (Inteligência Artificial), O Homem Bicentenário...

 

Você é um replicante? Se você responder SIM em pelo menos 7 das questões abaixo você é! Brincadeira...

1. Você tem memórias da sua infância?
2. Você lembra de já ter visto alguma vez na vida uma aranha?
3. Você acha que a vida passa muito rápido?
4. Você tem vontade de conhecer seu criador?
5. Você já chorou?
6. Você já viu chuva?
7. Você já bateu ou quis bater em alguém?
8. Você tem medo da polícia?
9. Você gosta de origami?
10. Você gosta de brinquedos eletrônicos?
11. Você sente o vento em seu cabelo?
12. Você é do tipo que nao tem empatia por todo mundo?
13. Você acha que nao é um replicante?

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Postado em 29/07/2012 15:27

Donnie Darko

Donnie Darko
Por quê você está usando essa estúpida fantasia de coelho?

Já faz um bom tempo que assisti Donnie Darko pela primeira vez, mas a incrível sensação que o filme me transmitiu ficou marcada para sempre, e assisti-lo pela vigésima vez (sim, vinte vezes, desta vez em Blu Ray) me motivou enfim a escrever uma crítica de um filme tão complexo que considero número zero (para que nenhum outro ocupe seu lugar, rs) da minha lista de preferidos.

Donnie Darko é um filme que se ama ou se odeia, não há meio termo. Quem consegue ser “fisgado” por sua trama, mergulha em uma experiência tão surpreendente quanto seu desfecho. Richard Kelly, escritor e diretor do filme, ainda como um diretor estreante, conseguiu incluir, cuidadosamente, diversos elementos que enriquecem sua obra, principalmente sua maravilhosa e nostálgica trilha sonora, com destaque para uma versão excepcional da música Mad World, por Gary Jules, da banda oitentista Tears For Fears.

Não há vergonha em dizer que não entendeu Donnie Darko. Por mais que o próprio diretor tenha exposto suas explicações a respeito do filme, deixou as brechas necessárias para nossa interpretação pessoal. Como costumo dizer, por mais vezes que já tenha assistido, cada vez mais consigo interpretar coisas diferentes do roteiro. Sua riqueza de elementos subliminares, conexões entre personagens e teorias metafísicas levam nossa imaginação muito além do comum.

A primeira vez que tive a oportunidade de ver o filme casou com a época em que estava estudando determinismo filosófico, indicação do professor. Ainda mais após ter visto Efeito Borboleta, que até então possuía o mesmo tema, mas muito longe ainda da profundidade de Donnie Darko. Ainda lembro como hoje: fiquei perplexo ao final do filme, quando os créditos apareciam na tela. Pra mim, um filme é bom quando abre nossa mente para novas possibilidades, e foi exatamente o que a obra fez comigo no momento mais oportuno.

Donnie Darko é um filme que explora a ideia de determinismo, ou seja, a ideia de que todo acontecimento é explicado por relações de causalidade: toda ação gera uma reação em cadeia. Podemos ter controle dos acontecimentos e “moldar” o futuro? Richard Kelly conseguiu ir além do conceito, entrecruzando com teorias de física quântica, tempo, espaço, universos paralelos, buracos de minhoca, além de pincelar elementos do cristianismo. Tudo isso em uma absurda riqueza de detalhes e situações aparentemente sem nexo, mas que são a chave do entendimento da história e exigem muita atenção do espectador.

O filme foi lançado em 2001, custando uma bagatela de US$ 4,5 milhões (muito pouco para os padrões de Hollywood) e filmado em apenas 28 dias (exatamente o tempo que o coelho Frank afirma que o mundo chegará ao fim). O filme não foi um sucesso de bilheteria, mas acabou sendo muito bem avaliado pela crítica mundial e entrou para o hall dos filmes cult. Drew Barrymore, produtora do filme, topou se arriscar no projeto e contribuiu muito para a publicidade do filme. O falecido ator Patrick Swayze também abraçou o projeto quando leu o roteiro, reduzindo seu cachê.

Em 2004 foi lançada uma versão especial do diretor, com 15 minutos extras, onde Richard Kelly ajuda no entendimento do roteiro, mas que acaba perdendo um pouco da magia original do filme. Após uma desastrosa continuação desnecessária (não, não foi Kelly que escreveu e dirigiu), Samantha Darko (irmã de Donnie no primeiro filme), Donnie Darko permanece na história do cinema como um filme irretocável, complexo, e mesmo na categoria cult, conquista mais e mais fãs a cada dia que passa. Uma preciosidade para ter na coleção de qualquer cinéfilo e um filme indispensável para os curiosos de plantão, mesmo que seja assistido em um universo tangente.

Caso você já tenha assistido ao filme, segue alguns pontos importantes no filme que merecem muita atenção:

• O homem gordo de laranja que sempre está observando Donnie;
• O nome do filme em cartaz no cinema que Donnie vai se encontrar com Frank;
• A cena em que Frank passa a mão em seu olho após acordar;
• A Vovó Morte;
• A namorada de Donnie acenando para sua mãe ao final de tudo;
• A cena em que o professor de Donnie fala que não pode continuar o assunto sobre viagem no tempo;
• As frases de efeito de Donnie e Frank;
• A chinesa Cherita, fã de Donnie;
• A cena em que os professores de Donnie se olham e falam o nome dele com certo conhecimento;
• A sessão de terapia de Donnie com sua psicóloga e o comentário sobre Christina Applegate;
• Cellar Door;
• O livro “A Filosofia da Viagem no Tempo”;

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Postado em 29/12/2011 22:18

A Pele que Habito

A Pele que Habito
Criar um ser humano à imagem e semelhança de sua ex-mulher?

Confesso não ter assistido os filmes de Pedro Almodóvar, mas sei de sua forte reputação. A Pele que Habito foi o primeiro de minha lista, e li por aí que este seu novo trabalho quebra algumas regras de seu próprio estilo. Filmografias à parte, farei então uma análise mais imparcial de seu novo (e perturbador) filme.

Desde que sua esposa foi queimada em um acidente de carro, o Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas), um iminente cirurgião plástico, interessou-se em criar uma nova pele com a qual ele poderia tê-la salvo. Depois de 12 anos, ele consegue criar uma pele artificial que é um escudo mais forte do que a pele humana original. Robert realiza os testes em uma cobaia humana, Vera (Elena Anaya), que mantém aprisionada em sua casa.

A Pele que Habito é um filme perturbador, tanto por seu constante clima de frieza e suspense, quanto às várias dúvidas que aos poucos vão sendo respondidas durante a projeção. A fotografia acompanha a obsessão e frieza de Dr. Robert e a forma sádica com que cuida de sua cobaia humana, Vera, ora tratando-a de forma descartável, ora revelando uma atração amorosa.

Vera possui uma forte semelhança com sua ex-mulher morta em um acidente, o que mostra que, muito além da busca de uma pele artificial humana perfeita, Dr. Robert também busca manter a imagem de sua mulher literalmente viva ao seu lado.

Sem nenhum pudor em mostrar o corpo nu de Vera (ao contrário de muitas obras hollywoodianas), Almodóvar exibe o corpo da cobaia como uma obra de arte da medicina, um estágio da perfeição humana, uma pele perfeita, um corpo perfeito, porém artificial. Sem apelo sexual, porém com uma forte beleza, quase uma escultura viva.

E a história, aos poucos, vai se tornando cada vez mais bizarra e doentia, com estranhas ligações entre os personagens, rumo a uma revelação surpreendente. Obviamente não vou revelar muitos detalhes que possam estragar a surpresa, então pularei logo para uma análise mais filosófica do filme.

Com uma estrutura narrativa em três atos não lineares, Almodóvar explora a artificialidade da beleza em nosso tempo, além da relatividade do sexo no ser humano. Sexo aqui neste contexto, leia-se masculino/feminino. Não adianta criar um corpo da forma que se queira, como para atender sua necessidade doentia de manter a imagem de sua ex-mulher viva, se seu verdadeiro conteúdo é impossível de ser mudado. Dr. Robert acaba se apaixonando por sua cobaia e mantendo-a como sua mulher, apenas iludido por sua aparência física, mas ignorando a verdade de sua origem.

A busca por uma pele humana melhorada surge de um trauma egoísta, pessoal, mas sendo o meio necessário que beneficiará a todos. O domínio psicológico e o cárcere de sua cobaia ressaltando a relação de poder homem/mulher invertida através de uma assustadora punição para Vera.

O próprio título do filme carrega sua filosofia: A pele que habito, ou seja, Vera é apenas uma consciência humana que habita um corpo que nem é seu. Habita presa, tanto mentalmente, quanto fisicamente.

Até o momento da surpreendente revelação o filme continua impecável, porém me surpreendi de forma negativa com seu desfecho final, que no meu caso foi bem previsível e achei bastante simplório. Infelizmente seria um filme irretocável se seu final fosse um pouco mais complexo e explorasse mais a temática polêmica do filme.

Ah, e se você, depois de saber quem realmente era Vera, começar a ter repúdio de sua relação com Dr. Robert, comece a repensar seus próprios conceitos... 

P.S.: O nome da atriz coadjuvante é Marisa Paredes. Seria uma parente minha? 

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Postado em 17/08/2011 02:05

Melancolia

Melancolia
Simbolismo marcante em uma bela cena do filme

Segundo o Wikipedia, Melancolia “...é um estado psíquico de depressão sem causa específica. Caracteriza-se pela falta de entusiasmo e predisposição para atividades em geral. É uma das "características" da Depressão Maior. A duração do estado depressivo deve ser superior a dois anos, afetando as funções básicas do dia-a-dia de uma forma considerável."

A definição encaixa-se perfeitamente no estado depressivo enfrentado nos últimos anos pelo diretor do filme homônimo, Lars Von Trier, que, ao invés de apenas ignorar a vida, aproveita seu talento cinematográfico para expurgar suas angústias através da sétima arte.

E talvez Melancolia seja a última fase de sua luta contra a depressão. Comparado a seus filmes anteriores, este poderia ser tranquilamente assistido por uma criança de 12 anos. Seu filme anterior, Anticristo, cuja crítica já passou aqui pelo blog, consiste em um sadismo psicológico com fortes cenas de violência e um mergulho complexo no mundo da psicanálise. Já Dançando no Escuro, de 2000, violenta o espectador, colocando a protagonista em uma série de flagelos cada vez mais angustiantes, culminando em um chocante ato final.

Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração. Enquanto o planeta se aproxima, Justine começa a agir de forma estranha, entrando em um estado de melancolia profunda. Aos cuidados de sua irmã, a angústia e a incerteza da colisão do planeta com a Terra acaba unindo a família e revelando os conflitos mais internos de seus personagens.

O filme inicia com 10 minutos de belíssimas imagens em câmera lenta, revelando o destino final de seus personagens, repletas de simbolismos e com uma fotografia impecável, mesmo artifício usado em Anticristo. A partir daí, seguimos com a história filmada em câmera na mão, com cortes secos e som ambiente proporcionando a tensão da expectativa do final já apresentado no ínicio do filme. Um clima tenso que nunca passa do morno, o que torna o filme bem monótono durante seus 130 minutos de projeção.

Mas isso não tira seu mérito meditativo, repleto de simbolismos ao bom estilo de Lars, abrindo as interpretações para cada espectador. Sem falar na perfeita fotografia mesmo com uma câmera inquieta e a angustiante ideia de um planeta se chocar com o nosso, cuja cena da colisão nos insere dentro do momento apocalíptico. Soma-se a isso o fantástico trabalho dos atores escolhidos pelo critério rigoroso de Lars, com destaque para Kirsten Dunst, cuja atuação lhe concedeu o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes.

A morte é a única certeza que temos na vida. Sabemos que não temos como escapar dela, e quando sentirmos sua aproximação, seja por uma doença, seja pela idade, seremos consumidos por uma angústia, uma melancolia profunda, prevendo o ato final de nossa vida. O planeta Melancolia é uma representação simbólica da morte, que um dia irá consumir a todos sem piedade.

Justine enfrentou sua angústia conformada. Já Claire, sempre tão controlada e metódica, se desesperou diante da certeza da morte. Em certo momento do filme, Justine tenta cruzar uma ponte andando a cavalo, mas ele para e não consegue atravessá-la. No segundo ato, o mesmo acontece com Claire, quando na fuga com o carrinho de golfe, a bateria acaba e ela também não consegue cruzar a mesma ponte. Uma representação da incapacidade de cada uma de não conseguir transpor obstáculos, superar uma depressão, uma melancolia profunda.

Assim eu fiz minha interpretação do filme. E você, qual foi sua interpretação?

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Postado em 07/03/2011 19:12

Eraserhead

David Lynch é um cineasta nada convencional. É conhecido por filmes que mergulham no abstrato mundo dos sonhos, onde imagens desconexas e enredos fora de ordem entregam a responsabilidade de interpretação totalmente ao espectador. E é isso que faz uma grande experiência assistir a um filme de David Lynch.

Lynch também é inovador e à frente de seu tempo (o que muitas vezes tornou filmes maravilhosos em fracassos de bilheteria). Aproveitou a revolução da internet como um ótimo veículo de divulgação de seus trabalhos, alguns disponibilizados gratuitamente no site www.davidlynch.com (recomendo o download gratuito do curta metragem Rabbits). Marcou época com a série para TV Twin Peaks, que acabou gerando um longa para cinema e continua sempre envolvido em ótimos projetos, vezes como diretor, produtor e até mesmo ator.

Sempre ouvia muito falar em seu nome, mas foi no primeiro filme que assisti, Cidade dos Sonhos, que entendi o porquê de sua fama. O impacto do filme foi imediato e logo me fez buscar seus demais trabalhos. Em seguida veio O Homem Elefante, baseado em uma história real famosa, também supreendente principalmente por sua fotografia. Logo após o excelente (e complicado) curta metragem Rabbits e por fim o objeto desta crítica, seu primeiro e marcante trabalho, Eraserhead (1977).

A sinopse do filme, explica pouca coisa: Eraserhead segue um curto período da vida de Henry Spencer (Jack Nance), um impressor de férias. Henry descobre que sua namorada, Mary X (Charlotte Stewart), deu origem a um deformado e monstruoso bebê. Após um tumultuado e breve período vivendo juntos, Mary Henry deixa o bebê aos cuidados de Henry. Ele tem algumas visões bizarras de uma mulher deformada em seu aquecedor, e um sonho em que a cabeça de Henry é utilizada para fazer lápis borracha. Estas ocorrências levam Henry cometer um ato dramático.

Filmando em preto e branco, Lynch quase não conseguiu concluir o filme, teve de usar dinheiro de amigos e familiares, e demorou quase cinco anos para terminar todas as tomadas. Vale ressaltar que na época em que escrevia o roteiro, sua esposa engravidou de seu primeiro filho, o que influencia claramente na interpretação geral do filme.

É muito arriscado buscar uma interpretação fechada para o filme, visto que é muito rico em mensagens subliminares e bizarras cenas que aparentemente parecem desconexas e sem o menor sentido. E é isso que torna Eraserhead um mergulho profundo e fascinante em um universo que parece ter sido retirado diretamente do último pesadelo da mente de Lynch.

Tendo em mente o fato de que Lynch estava para ter seu primeiro filho ao escrever o roteiro e enxergando por uma ótica Freudiana, as coisas parecem fazer mais sentido (se é que isso seja necessário) e tudo acaba se revelando surpreendente: a forma como ele expõe os elementos do inconsciente da mente humana, seus medos, suas angústias, seus desejos através de cenas e elementos bizarros e sinistros. É como assistir um pesadelo ao vivo diretamente dentro da mente do protagonista Henry.

Lembrando que Lynch sempre prefere entregar a interpretação de seus filmes ao próprio espectador, evitando explicações prontas, logo o que entendi do filme é estritamente pessoal, mas acabei encontrando outras pessoas pela internet que fizeram interpretações semelhantes. O filme parece girar em torno do medo de uma gravidez indesejada (representada por um bebê medonho) e os medos e angústias de um homem abandonado pela esposa, com um casamento forçado pela situação e sua prisão à obrigação de cuidar de seu filho e abrir mão de sua vida normal e seus desejos com outras mulheres.

Uma das cenas mais bizarras do filme, mostra a cabeça de Henry sendo transformada em um lápis com borracha em uma fábrica. O suficiente para você dizer “esse filme surtou”, mas que tem uma possível explicação: depois que Henry enlouquece a ponto de sua cabeça literalmente cair, a cena mostra o desejo reprimido de Henry corrigir seu erro (borracha), como um desejo de apagar de sua mente seus problemas.

Em diversos pontos do filme podemos também ver alusões ao seu yin-yang, sua consciência em conflito representada pela bizarra mulher dançarina em seu aquecedor. Ao final, Henry mata seu bebê representando sua libertação, onde um lado de sua consciência finaliza com uma frase marcante: “No Paraíso tudo é bom”. Também existe uma figura intrigante e bizarra que aparece no começo e no fim do filme que entendo como sendo uma representação de seu erro que gerou a criança (através de diversos elementos no filme que sugerem espermatozoides e fecundação) e que ao fim é morto junto com o bebê, sugerindo a libertação também de sua angústia.

Eraserhead é um mergulho na mente humana que explora desejos, culpas, medos, perdas, loucura, embalada por uma trilha macabra e angustiante. Tudo para que o espectador o entenda e o interprete de acordo com seus próprios sentimentos. Não é um filme para ser apenas entendido, mas para ser sentido. E o fato de se chegar a uma possível explicação final para o filme não anula em nada a experiência única e marcante de assistir a uma obra tão ousada, misteriosa e inesquecível. Isso é David Lynch! Assista (mais de uma vez), tire suas próprias conclusões e comente aqui no blog. 

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Postado em 11/10/2010 12:35

Tropa de Elite 2

O primeiro filme Tropa de Elite (2007), agregou à nossa cultura bordões como: 'Pede pra sair', 'Tu é muleque', dentre outros. Abordou o treinamento intensivo e brutal das máquinas de matar do BOPE, onde o Capitão Nascimento foi visto (por muitos) como uma figura heróica, comandante de uma guerra contra o tráfico no Rio de Janeiro, enquanto lutava contra seus conflitos pessoais.

Os 'vilões' da história eram os traficantes, enquanto os policiais do BOPE, com sua violência fria e truculenta, eram os soldados mocinhos desta guerra. Porém para bom entendedor, percebia-se a crítica implícita à eficiência de toda essa violência no combate à violência civil e o quanto a sociedade precisa desta mesma violência para tratar o problema.

O primeiro filme também mostrava que, ironicamente, a classe média e alta que mais protesta contra os índices de violência, é, talvez, a que mais alimenta o sistema do tráfico, com os playboyzinhos que compram o mesmo produto causador de suas hipócritas reclamações. Pra piorar, os baixíssimos salários dos policiais contribuem para a ineficiência e consequente corrupção da Polícia Militar, deixando o trabalho para o BOPE, que no próprio filme é mostrado como a 'polícia da polícia'.

Nesta continuação, do mesmo diretor, José Padilha, percebemos claramente um amadurecimento das ideias políticas propostas pelo roteirista Bráulio Mantovani, que mostra que na verdade os inimigos não são diretamente os traficantes das favelas, mas que há um sistema muito mais complexo por trás de tudo isso, cuja engrenagem motriz é a política.

Agora temos o coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando, como aponta o subtítulo do projeto, outro inimigo: a política. Depois de comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta num massacre, Nascimento se torna um problema para o governador do Rio de Janeiro: por um lado, é exonerado para aplacar a mídia; por outro, é promovido a subsecretário de segurança (como o personagem fala, 'Cair pra cima'). Depois de aparelhar o BOPE e transformá-lo numa verdadeira máquina de guerra, o coronel interrompe o tráfico na cidade, mas, sem saber, propicia a ascensão de uma milícia nascida dentro da PM que, explorando a falta de poder do Estado, aterroriza as favelas para extorquir seus habitantes, transformando-as também em autênticos currais eleitorais. Sem perceber o que está acontecendo, Nascimento se vê atormentado por problemas pessoais e pela pressão exercida por um político de esquerda, o deputado Fraga (Irandhir Santos), cuja visão idealista acerca dos direitos humanos frequentemente gera embaraços para a polícia.

Assistindo o filme, não pude deixar de lembrar um documentário que assisti a um tempo chamado Manda Bala (Send A Bullet). Ganhador de vários prêmios, inclusive o Grande Prêmio do Juri em Sundance e que mesmo assim não permitiram que fosse exibido nos cinemas brasileiros, caindo na obscuridade. O documentário produzido por americanos (dirigido por Jason Kohn) e filmado em São Paulo mostrava a clara relação entre a corrupção política (ilustrada com ex-presidente do Senado Jáder Barbalho) e a problemática da violência, mais especificamente uma de suas mais assustadoras consequências: o sequestro.

E Tropa de Elite 2 segue a mesma linha de pensamento do documentário, porém de forma mais abrangente, complexa e de quebra com muita ação. Um filme inteligente, ácido, provocante, ousado, cru e intenso. O filme é conduzido como uma ficção (sua frase de início deixa isso bem claro, porém de forma irônica), mas que sabemos perfeitamente que é mais real do que gostaríamos que fosse. Tão real que é impossível não comparar o apresentador de televisão hipócrita e populista que usa isso para conquistar seu cargo político e está envolvido em toda a sujeira que tanto critica, usando a mídia como instrumento de seus interesses (em nosso próprio estado temos vários exemplos...).

Padilha também consegue incrivelmente mostrar a situação por diversos pontos de vista, mesmo tendo um protagonista como narrador da história. Inclusive o ponto de vista dos próprios políticos e bandidos, oferecendo mais argumentos para uma análise crítica aprofundada. E do ponto de vista do protagonista, o Coronel Nascimento, acompanhamos seu drama pessoal, sendo engessado pela burocracia do alto escalão, sua revolta em querer resolver o problema e ver que seus inimigos estão ao seu lado, e pra piorar, seus problemas de relacionamento com seu filho que o considera uma pessoa truculenta e o compara o tempo todo com seu padrasto, que pensa de forma oposta, sempre preocupado com os Direitos Humanos o que irrita mais ainda Nascimento.

Do ponto de vista técnico, Tropa de Elite 2 não deixa nada a desejar e dá uma grande lição de como produzir um filme sem efeitos especiais em computador, com uma fotografia crua e urgente, uma excelente direção, som, montagem, direção de arte e interpretação de seus personagens. Sem eufemismos e frases bonitas (no início do filme Nascimento ironiza esse clichê com uma ótima frase), pelo contrário, uma linguagem fria e cotidiana .

Um conjunto de minúcias que eleva o filme a um patamar conceitual nunca antes alcançado pelo cinema brasileiro, e indo de encontro ao patriotismo irracional americano, Tropa de Elite mostra tudo de forma clara e ácida, rasgando a barriga e mostrando as entranhas do problema sem o frequente medo de empresários ou dos grandes estúdios produtores de filmes que interferem no resultado final. Ainda por cima, consegue manter um ritmo incansável e com humor na dose certa.

Tropa de Elite 2 é um filme obrigatório para todo brasileiro (assim como os documentários Manda Bala e outro muito bom sobre o Pré-Sal, O Petróleo é Nosso), principalmente para aqueles que vivem criticando o governo, mas sempre esquecem que os políticos só estão lá por nossa culpa. E quem prestar bem atenção perceberá a crítica direta de Padilha que mostra o Governador do Rio sendo reeleito pelo povo e como isso é feito junto à manipulação da mídia e as famosas queimas de arquivo.

Há momentos no filme em que o Coronel Nascimento incorpora cada um de nós brasileiros revoltados, e nos dá um breve momento de expurgação, vezes espancando um Governador corrupto, vezes denunciando abertamente todos os envolvidos no sistema. Infelizmente, ao contrário do resultado no filme, na vida real esses mesmos políticos não tem o mesmo destino que gostaríamos. E talvez nesse ponto Padilha nos dê outra lição, a da esperança; de que é possível continuar sendo honesto e íntegro e algum dia conseguir mudar o sistema, o verdadeiro inimigo da sociedade.

Na sala de cinema que assisti as pessoas aplaudiram muito ao término do filme. Mas acho que ao invés de aplaudir, as pessoas deveriam permanecer em silêncio para refletir. Refletir bastante, principalmente pela nossa própria culpa em tudo isso...  

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Postado em 25/04/2010 10:46

Alice no País das Maravilhas

A primeira impressão que tive ao assistir a versão cinematográfica de Alice no País das Maravilhas foi a de que Hollywood está ficando preguiçosa, tanto nos roteiros, quanto na parte técnica. E esta versão do clássico livro de Lewis Carroll dirigida por Tim Burton demonstra exatamente esta triste fase do cinema.

Enquanto nos maravilhamos com as novas tecnologias de som, imagem em alta resolução, três dimensões, dentre outras, esquecemos da essência de um filme, o que o faz ser uma obra justificável da sétima arte, uma forma de entretenimento que nos envolva magicamente em sua história com seus elementos visuais complementares.

Estamos vivendo a fase do 3D. Qualquer filme hoje, para ter apelo comercial, precisa ser em três dimensões. Concordo com as palavras proferidas por James Cameron em uma entrevista à Revista VEJA que disse que o futuro do cinema é o 3D, já que o ser humano enxerga em três dimensões, e não plano, logo o natural é que o 3D ganhe facilmente o seu espaço.

A diferença é que Cameron tem autoridade máxima para falar isso, visto que ele foi o criador da verdadeira tecnologia 3D em Avatar. Ao mesmo tempo em que, quando assistimos Avatar em 3D ou não, vemos um filme natural que não precisa conter o tempo todo a mensagem embutida: 'Olhe! Este filme é 3D! Agora vou jogar algo em sua direção para você perceber'.

E este é o triste caminho seguido por Alice durante toda a projeção. E o pior: todo o filme aparenta ter sido conduzido apenas com o intuito de explorar (ingenuamente) a tecnologia 3D, esquecendo de um bom roteiro e de uma boa dinâmica, tornando o filme bastante enfadonho, tanto para crianças, quanto para adultos.

E para piorar mais ainda, ficou bem claro o quanto Tim Burton está se entregando ao submundo comercial de Hollywood. Posso até imaginar o momento em que a Disney o convida para dirigir um novo filme de Alice: 'Tim, queremos produzir uma versão em carne e osso do livro Alice no País das Maravilhas, e acreditamos que você é o diretor perfeito para tal filme já que o livro tem um apelo sombrio e subliminar. Só que também precisamos atingir as crianças, visto que lucraremos muito com produtos relacionados ao filme, mas também temos que encantar os adultos. E tudo isso tem que ser em 3D!'.

O resultado claro é um filme sem foco algum, nem para crianças, nem para adultos, nem para qualquer outro público. Além disso temos o roteiro escrito por Linda Woolverton (O Rei Leão) que misturou a história dos dois livros de Alice, acrescentou os pobres elementos da moda como Harry Potter e finalizou com uma pitada de Hook – A Volta do Capitão Gancho, o que resultou em um roteiro fraco, perdendo a grande oportunidade de aprofundar-se no complexo mundo psicológico de Alice. Burton poderia aprender bastante com Onde Vivem os Monstros, que, na minha opinião, deveria ter sido o caminho seguido neste filme.

Antes de Alice ser lançado, criei muitas expectativas quando soube que era dirigido por Tim Burton. Achei que ele seguiria o caminho de Edward - Mãos de Tesoura e aprofundasse de forma inteligente nos elementos subliminares e simbólicos da complexa história original de Alice no País das Maravilhas. Com certeza teríamos um novo marco em Hollywood. Alice seria um filme com um bom apelo comercial (que obviamente a Disney não deixaria passar batido) mas também encantasse com a tecnologia 3D e fosse sustentado em um roteiro muito intenso que explorasse a fundo cada personagem da trama, o que para mim é o grande trunfo da idéia.

Só que Burton já havia mostrado sinais de fraqueza com os mesmos erros cometidos em A Fantástica Fábrica de Chocolate que ainda conseguiu se sair melhor que Alice. Sem falar na chata insistência de escalar sempre Johnny Depp em seus filmes, o que já se tornou pleonasmo quando se fala em filmes de Tim Burton. Porém quem acaba ganhando a cena em termos de interpretação é Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha) que incorporou de forma excelente uma personagem que age impulsionada por seus próprios defeitos, refletindo toda a falsidade ao seu redor. Enquanto isso Johnny Depp se torna uma figura pálida e claramente forçada na tentativa de interpretar um chapeleiro maluco.

E o que falar da protagonista Alice? Esperava ser supreendido pela atriz novata Mia Wasikowska, que não conseguiu abraçar nem um pouco a complexidade de sua personagem, onde, junto aos graves defeitos de planos do diretor, sempre aparece de forma repetitiva e sem nenhuma força de atuação. Por falar em planos (fotografia), fiquei muito surpreso ao ver a total falta de criatividade de Burton chegando ao extremo de repetir duas panorâmicas seguidas na cena em que o cachorro está correndo em direção ao castelo.

Com tantos defeitos, resta somente sentar e curtir a ilusão do 3D que no caso de Alice se torna repetitiva e cansativa, além de percebermos claramente o amadorismo do diretor junto à tecnologia com um 3D artificial feito durante a pós-produção, ao contrário de Avatar que foi filmado já com a tecnologia. Só o que nos resta então é curtir o colorido do filme e a fraca computação gráfica que domina o filme e nos faz sentir saudades do tempo em que Hollywood ainda se dava ao trabalho de produzir maquetes e objetos reais para melhorar a verossimilhança do cinema.

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Postado em 21/02/2010 18:36

Onde Vivem os Monstros

Spike Jonze é admirável por conseguir equilibrar filmes que consigam ser comerciais mas ao mesmo tempo reflitam sua livre visão nada convencional, resultando em filmes esquisitos porém muito interessantes como Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Talvez com o intuito de colocar em prática seu estudo do bizarro comportamento humano, Jonze também foi co-criador e produtor da série de TV Jackass.

Em Onde Vivem os Monstros, Jonze conseguiu uma proeza mais admirável ainda. Transformar pouco mais de dez frases do livro no qual é baseado (escrito há quase 50 anos por Maurice Sendak) em um longa profundo e que nos dá uma visão nunca antes vista no cinema da mente de uma criança, através de seu personagem principal, Max.

Max é uma criança comum: na escola, brinca com os colegas; em casa, busca a atenção da mãe e da irmã e, quando falha em consegui-la, se sente frustrado. Tem medo e chora ao ser soterrado num banco de neve depois de uma brincadeira. Ao ser repreendido pela mãe, reage de maneira impulsiva, machucando-a, arrependendo-se imediatamente do que fez. Sem compreender a melancolia e a seriedade do mundo adulto, ele constantemente se volta para seu rico universo interior, usando a imaginação não apenas para se divertir, mas também para fugir daquilo que o incomoda. A partir daí, Max foge de casa e refugia em sua imaginação em uma ilha com imensos monstros peludos.

E o filme é tudo menos o que aparenta ser: um filme infantil com monstros assustadores. Eu realmente não recomendaria que crianças o assistissem. O filme acaba revelando-se uma profunda análise psicológica do comportamento infantil, seus medos, suas dúvidas e seus conflitos em relação ao conturbado mundo dos adultos.

Ambientado em um clima opaco, triste, pouco iluminado e muito pouco colorido, prezando por tons de cinza e ocre, com monstros que à primeira vista parecem assustadores mas que ao longo da projeção revelam-se cativantes e confusos, Jonze consegue que mergulhemos na imaginação de Max com uma fantástica direção de arte que traduz o ar de melancolia e confusão de sua mente.

Aos poucos percebemos que cada monstro na verdade reflete um traço específico de sua personalidade, Max acaba se envolvendo em problemas com cada um deles e tenta fugir daquele que aparentemente reflete o seu pior traço pessoal, ironicamente o mesmo que o levou a fugir de casa: a insegurança e carência de atenção. Vemos então Max tendo que enfrentar seus próprios problemas pessoais personificados nos monstros criados em sua imaginação.

A partir daí o filme começa a se tornar perturbador, sombrio e ao mesmo tempo belo e cativante, por sua naturalidade, com monstros realistas (construídos com o misto de atores fantasiados e computação gráfica para as expressões faciais) fugindo da artificialidade e revelando claramente a personalidade de cada um, tudo embalado com uma exótica e maravilhosa trilha sonora.

Onde Vivem os Monstros nos faz voltar ao que sentíamos na infância e a analisar o comportamento humano em sua fase mais conturbada, mostrando, ao mesmo tempo, a relação dos pais com seus filhos em uma sociedade tão voltada para o lado material. Max ao fugir de casa, refugia-se em seu mundo particular para conhecer e enfrentar seus próprios problemas tudo dentro de sua imaginação. Ou será que não? ...

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