João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 16/05/2018 09:31

Uma Rude e Indiscreta Confissão

Saber que a velhice um dia chegará, teoricamente aceitável na juventude, é uma coisa, mas frente à sua realidade, é difícil aturá-la e suportar seus achaques, um tremendo e insuportável fardo. É bem provável, admito, que tudo foi feito pelo Criador dentro de uma estratégia para harmonizar conflitos existenciais. Seria possível imaginar que o deixasse de ter apego pela vida se continuasse em toda sua decrepitude, sem sofrimento e conhecidas limitações, a gozar os prazeres da juventude? Seria melhor a partida, cheia de inconformismo e revolta. Seria irreal porque iria de encontro à lei natural dos opostos, no caso, juventude e velhice. Se na primeira prevalece o hedonismo, os prazeres da vida, na outra dá-se o enfraquecimento, chegando à completa atenuação dos mesmos.

Em linhas gerais, foi esse o pensamento inicial que consegui sintetizar à presente confissão feita pelo ilustre Cantídio, falecido há cinco anos atrás, aos setenta e seis anos. Fez, pouco antes de morrer, em uma de nossas habituais conversas em seu sítio de tantas churrascadas. Amigos diversos com suas mulheres e filhos faziam parte das mesmas. De vez em quando, em data especial, com a presença de violão, outros instrumentos e improvisados cantores, tornavam-se mais divertidas.

Transcorrida metade da festa, cabeça incrementada pelo álcool, Cantídio puxou-me pelo braço para nos sentarmos um tanto afastados dos demais. Foi sua ultima conversa interessante. Tinha ideia do que queria comentar em razão de seu persistente olhar em direção de uma bela jovem em torno de uns dezessete anos, uma formosura a encantar e sobressair-se entre as demais. Existiam outras também bonitas, independente da natureza do velho em achar toda jovem bela e atraente.

Não sei, continuou, o que você pensa ou sente, já que na mesma faixa etária, ao ver tantas garotas cheias de vida e beleza. Certamente uma rápida volta ao passado e o inconformismo face a impossibilidade de tê-lo de volta. Fico assanhado, como de fato estou, mas tenho dúvida, se fosse possível ter aquela beldade numa cama se conseguiria, com toda imaginável fantasia, consumar o embate amoroso. Acho que conseguiria. Uma beleza daquela ressuscita qualquer defunto. Dúvida à parte, o que tenho vivido, com o franco declínio da libido, é a encenação de investidas a me enganar, permitindo o início, chegar ao meio é uma difícil conclusão. É realmente desolador que enquanto a gente aprecia aquelas belezas infernalmente apetitosas, estamos a sofrer a maldição do tempo que tudo nos tira do que é mais belo e importante. Aleijões e deficiências mil pulam sobre nossa carcaça. Olho-me diante do espelho e vejo um rosto com algumas pregas, um corpo flácido, cheio de manchas e outros sinais de mau gosto para torna-lo cada vez mais feio e horripilante. O curioso é que suporto essa transformação para a fealdade. O mesmo não acontecia quando observava a minha mulher (que Deus a tenha no céu), revendo o seu passado, bonita e atraente, posteriormente transformada pelo avesso, a tal ponto que quando trocava de roupa preferia torcer o rosto, sendo tomado por um sentimento misto de hilaridade e comiseração. Lembrava-me do início das nossas aventuras amorosas e da minha incontida ansiedade para despi-la e abraça-la numa verdadeira explosão de inebriante jogo amoroso. Bons tempos!

E o tempo passa e ficamos reduzidos às boas lembranças. O outrora campeão e suas aventuras amorosas sexuais não mais existem. O erotismo desapareceu a tal ponto que quase não existe disposição ou tentativa de atiça-lo. Tenho certeza, no entanto, que um longo inverno peniano pode ter o deslumbre de uma linda primavera com aquele pecado de mulher. Ah as mulheres, meu amigo! No passado faziam um morada permanente em minha cabeça, enxergando-as apenas pela ótica libidinosa. Essa limitação em assim vê-las sempre impediu que a minha imaginação fosse capaz de pôr no mais alto pedestal uma mulher bonita e sedutora numa altura acima da cama. Reconheço que é uma visão animalesca, mas, infelizmente, animalescamente verdadeira. Não me lembro, mesmo na fase romântica da juventude, ter existido em mim aquele toque de inocência e doçura que empresta todo encanto e lirismo de uma paixão amorosa. Parece que em meu peito sempre pulsou um coração adusto e ressequido por razões que desconheço. Minhas manifestações de carinho, afeto e ternura surgiram somente para a conquista da relação amorosa. Eram puramente interesseiras e submissas à cupidez pelo sexo. Não tinham a pureza de uma nascente de águas límpidas e cristalinas, mas de uma fonte de águas turvas e contaminadas pelo instinto animalesco.

Embora tivesse continuando no seu imprevisto e improvisado discurso sem censura íntima, instigado pelo álcool, preferi ficar com o presente resumo. Foi, sem dúvida, a mais inesperada confissão, bem mais apropriada ao desabafo de um touro a lamentar, cheio de nostalgia, o ocaso de suas funções reprodutivas.
 

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