João Pereira

João Pereira

Advogado, escritor e atento observador da política

Postado em 09/11/2017 15:14

O Agnóstico e a Música Religiosa


A música é uma exímia e insuperável maestrina capaz de manipular ao extremo as nossas emoções e sentimentos, podendo fazê-los planar entre polos opostos, indo da exaltada alegria à serenidade, à nostalgia, à reflexão e à paz. A sua harmonia possui toda magia e encantamento capaz de enfeitiçar- nos dando-nos a sensação de nos evolar no etéreo infinito do espaço. Da mesma forma, a ascese que chega a nos tocar por sua inspiração leva-nos naturalmente a uma união com o divino. A mais fascinante das artes causa-nos tamanho deleite que ficamos a imaginar que o Criador sempre a teve como indispensável e inseparável musa inspiradora de toda a sua criação. É bem possível que um dia venhamos captar do espaço essa música divina e possamos gozar a mais encantadora harmonia entre as primícias celestiais. Talvez seja uma questão de tempo já que todo acontecimento fica gravado para sempre e por sua vez, segundo o registro Akashico, tudo está interligado desde o mundo pessoal de cada um de nós ao todo universal. Que um gênio da música seja premiado com o dom especial para capta-la e pautá-la com fiel precisão.

Alexis era um agnóstico introvertido preso aos temas e indagações transcendentais. Aliada a essa predisposição intelectual, tinha impulso á meditação e uma forte predileção pela música sacra. Será possível imaginar que o agnóstico ou o ateu possa apreciar algo ligado à igreja, como a música religiosa? Só aparentemente pode parecer estranho. Isso porque a música, como os anjos, não tem sexo, não tem filosofia e crença, mas tão-só emoção e sentimento. Sob seu comando e efeito em nosso estado de espírito podemos simplesmente aprecia-la ou extasiar-nos e sermos lançados às alturas em direção às altas indagações sobre o inacessível.

Seus pais eram católicos praticantes e desde cedo, a partir dos seis anos, acompanhava-os ás missas dominicais. Não sabia do seu significado. Mais tarde, em torno dos quatorze anos, começou a perguntar-se sobre á existência do céu, do inferno, da existência de Deus, do castigo, da vida eterna e outros ensinamentos. As dúvidas começaram a surgir. As missas passaram a ser maçantes. Poucos anos depois, para surpresa de seus pais, deixou de frequenta-las.

Apesar dessa radical guinada de suas convicções, tendo se tornado um agnóstico, a única coisa que lhe restou da igreja foi gosto pela música cantada nas missas festivas. Desde cedo, ao ouvi-la, ficava ensimesmado e melancolicamente pensativo. Uma pena que as missas não fossem descontraídas, mas de fato um santo sacrifício. Um resquício, sem dúvida, da idade das trevas quando se acreditava, alguns ainda hoje, que os sacrifícios em geral, até mesmo a flagelação do corpo, purificavam os pecados e demonstravam amor a Deus. Esse entendimento atentava contra a lógica vez que não há nenhuma compatibilidade entre o amor divino sem limites e o sacrifício que torna Deus humanamente desumano. Por que o sacrifício em vez do prazer e da alegria? Nem os gregos, uns quinhentos anos antes de Cristo, alimentavam uma concepção tão estúpida. A propósito, os Pitagóricos acreditavam que a alma, anterior ao corpo e oriunda de outro mundo, estava ligada ao corpo por ter pecado. Para livrar-se do material e voltar a ser totalmente espírito, tinha de trilhar o caminho da purificação através da ascese, do jejum, do silêncio, do exame de consciência à noite de seus atos diurnos. Também se fazia necessária a atividade intelectual, sobretudo filosofia e matemática. Nunca a flagelação. Que diferença! Alexis, num sentido oposto ao sacrifício da missa, preferia fazer parte dos Khlistys, seita russa da qual diziam fazer parte o famoso Rasputin, cujo ritual culminava numa orgia. Acreditavam seus adeptos que por ocasião do orgasmo o espírito santo baixava entre os participantes. Podemos imaginar encontro mais perfeito e completo com o divino, unindo a pura espiritualidade com o mais agradável prazer físico, resultando na mais elevada expressão existencial?!

As impressões da infância e juventude ficam indeléveis na nossa memória. Lembrava-se da tristeza e decepção de seus pais com a sua descrença religiosa. Das missas, excluída a monótona chatice, somente o coral a entoar a música sacra permanecia de uma forma agradável. Não tinha preconceito musical. Apreciava quase todos os gêneros. Quando a sós, arrastado para as especulações filosóficas, procurava ouvir a música clássica e, para rememorar marcantes cenas dos fiéis nas missas, a sacra gozava de uma preferência especial. Permaneciam claras à imagem dos mesmos com os braços e olhos voltados para o alto parecendo criaturas frágeis, desgarradas e aflitas que transmitiam um dolorido lamento de súplica e clemência ao céu. Seu sentimento era alheio a esse tipo de manifestação. Chegou à conclusão que a música religiosa, sem deixar de ressaltar o canto gregoriano, podia causar efeito radicalmente oposto sobre as pessoas. Em umas, a súplica para e eterna vida celestial e para outras a suave extinção da vida. Embora nenhum instinto supere o de sobrevivência, o forte apego pela vida, somos de vez em quando, em sentido inverso, vítimas de insuportável tédio e melancolia que desejamos o retorno ao nada. Era um sentimento, por coincidência, em perfeita sintonia com o filósofo francês Camus que disse existir em nós a nostalgia do caos que precedeu a criação ordenada do universo. Assim é a vida e a morte, aparentemente divergentes, convergem para o mesmo fim, a eterna sucessão da vida.

Alexis desejava que os últimos instantes de sua vida se extinguissem de uma forma totalmente diferente. Queria que a terna suavidade da música o enfeitiçasse a tal ponto de leva-lo a sentir-se em êxtase profundo. Com os olhos fechados e a mente voltada para as alturas, na medida que a música se encaminhasse para a sua apoteose, sentiria aos poucos seu corpo volatilizar-se perder a consciência e extinguir-se por completo no etéreo do espaço sem fim.
 

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